domingo, 3 de dezembro de 2006

Esbarrar com a lucidez
«Dir-se-á que esta noção é pouco clara, mas de facto havia, naquele momento, uma diferença ostensiva entre a forma de olhar do médico Theodor Busbeck, o seu pai, olhar que aparecia e desaparecia com rapidez e que marcava o espaço com uma fita métrica inteligente – e o olhar daquela que diziam ser sua mãe: um olhar sem velocidade. Theodor fora ensinado pelo pai, Thomas Busbeck, que a inteligência era um índice do movimento do olhar. Se fizermos o cálculo, dizia Thomas, da velocidade dos olhos dirigindo-se às coisas para as perceber, velocidade média durante um ano, teremos o valor da inteligência dessa pessoa, e tal bastará para adquirirmos uma ideia bastante precisa acerca da produção intelectual desse indivíduo.
O mais breve encontro entre dois seres que não se conheçam bastará – se existir uma observação atenta do olhar do outro – para se captar a aptidão intelectual de cada um, mesmo que um e outro não troquem palavra. O que cada um diz não é suficiente: pode ser apenas boa memória – costumava afirmar o velho Thomas Busbeck - , se queres escolher um colaborador fecha os ouvidos e está atento aos olhos dele, à forma como se mexem: no fundo, ao modo como eles se atiram às coisas, como vêm um objecto e o rodeiam, como entram nele e depois saem ou ficam. O trajecto dos olhos no mundo dá o trajecto da inteligência.»
GONÇALO M. TAVARES, Jerusalém

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