terça-feira, 26 de agosto de 2014

seiscentos e trinta e três

um dia
a St. Vincent
pôs o fiozinho
por fora da t-shirt.

alguém a viu
com o fiozinho
posto por
fora da t-shirt.


e desse dia
em diante
todos passámos
a pôr
o fiozinho por
fora da t-shirt.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

seiscentos e trinta e dois

o pose-modernismo
dos pós moderninhos.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

seiscentos e trinta e um

'Of course I know the country I ran!'
retorquiu o ex-presidente do Irão.
seiscentos e trinta

treinar
apneia
na
casa-de-banho
pública.

domingo, 10 de agosto de 2014

seiscentos e vinte e nove

ex-folia da pele.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

seiscentos e vinte e oito

ao balcão da hamburgaria
o assistente leva na cabeça da supervisora
que o obriga a pedir desculpa ao colega
que sem querer enganou.

- pede desculpa ao teu colega.
- pede desculpa ao teu colega.
- pede desculpa ao teu colega.

é só coisas prontas a apitar por todo o lado.

nas mesas,
os fregueses comem os hambúrgueres
entre dois telemóveis,
o das chamadas e das mensagens na orelha,
e o da internet na mão.

os que não falam ao telefone,
conversam entre eles
das pequenas traficâncias dos seus rivais,
como o quarto que a vizinha de cima aluga
por não sei quanto
a estrangeiros
nas férias.

julgo manter a distância ao escrever,
mas a umas mesas,
atrás de um biguemaque,
um rapaz posta o seguinte no tablete
'está um gajo à minha frente tão armado em intelectual,
que em vez de comer está a escrever numa agenda.'

saio com a boqueira no canto da boca.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

seiscentos e vinte e sete

em
cada
homem
um violador
em potência.
seiscentos e vinte e seis

na melhor
da melhor
das possibilidades,
um nome de rua.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

seiscentos e vinte e cinco

extensão
das pilas,
nas guitarras
e nas
tele-objectivas.

terça-feira, 15 de julho de 2014

seiscentos e vinte e quatro

os romenos
entram
no metro
e atiram
música
mexida
de pandeireta
e acordeão
às nossas
caras
fechadas
de quem segue
a vida
glodiosa
de
ora graxa,
ora fretes.

domingo, 13 de julho de 2014

seiscentos e vinte e três

todos
partimos.

inteiros
ou aos
bocadinhos.
seiscentos e vinte e dois

para
os
homens

em
geral

qualquer
mulher

em
particular

serve

para
montar.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

seiscentos e vinte e um

eram
máquinas
de engraxar
estrangeiros
provenientes
de países
mais
'desenvolvidos'.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

seiscentos e vinte

as
pessoas-montra
com
a sua
roupa
e os seus
gestos
rigorosamente
en-saia-dos.
seiscentos e dezanove

às vezes
os velhotes
eram chamados
para as operações

depois
de terem
morrido.
seiscentos e dezoito

para
os
estrangeiros
somos
sempre
muito
simpáticos.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

seiscentos e dezassete

parecia
que
muita coisa
se passava.
mas depois
de tudo
espremido,
nem
caroço
ficava.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

seiscentos e dezasseis

estavam
tão
à
toa
que
abraçavam
árvores
para
se
encontrarem
a si-próprios.

terça-feira, 24 de junho de 2014

seiscentos e quinze

os homens eram os mais fracos.
seiscentos e quatorze

todas as famílias são disfuncionais.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

'Modernity is man's loneliness in a practical world.'
- George Steiner @ www.alanmacfarlane.com

terça-feira, 17 de junho de 2014

seiscentos e treze

(urbanita deslumbrante)

a unha de gel
da mesma côr
na mão e no pé.

o swatch dourado,
as alças da mala
pelo cotovelo
de ginásio.

a californiana no cabelo
e abaixo da testa
a trombinha bronzeada
que é só má-educação.

certamente
pela sele_ção
e pelos animais!

contra os radicalismos,
uma abstencionista convicta!

(contém o vómito)

quarta-feira, 11 de junho de 2014

seiscentos e doze

era uma vez
uma mãe
que não sabia
se o filho
já tinha ido
ao jardim zoológico
ou não.

domingo, 8 de junho de 2014

seiscentos e onze

lês os catálogos
todos
das promoções
e investes
prestações
no tablete
com mais gigas,
para jogares
jogo-do-galo
ou candy-crush.
seiscentos e dez

na sopa
e
no
ovo-estrelado
os homens
eram
geniais.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

seiscentos e nove e meio

escolhes
e compras
com esmero
os óculos
a mala
e os sapatos
que melhor
te podem
fazer
parecer
o
anti-capitalista
que sempre
imaginaste.
seiscentos e nove

já tens a mota preta.

compras o fato
as calças
as luvas
as botas
e o capacete.

deixas crescer a barba.

só falta
fazeres
cara de mau.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

seiscentos e oito

era uma vez um rapaz que nadava para manter a forma.
nadava, nadava muito,
para ficar em muito boa forma.
nadava sempre mais do que alguém que entrasse na piscina para nadar.
e estava cada vez mais forte e musculado,
sempre e cada vez mais em forma.

um dia,
depois de ter acabado de bater os registos pessoais
de distância percorrida e rapidez
- os anos que foram precisos para aqui chegar, pensou -
sentiu que a sua respiração estava diferente.

encostou-se num dos lados da pista 6
- que irritante aquela gente toda a nadar a ritmos tão diferentes e nessa pista só se conseguir nadar bruços numa das direcções por causa da parede -
ainda teve tempo de tirar a touca e os óculos
e de imaginar o que estavam a fazer
aqueles que amava.

morreu em excelente forma.

terça-feira, 6 de maio de 2014

seiscentos e sete

elas
punham-se
belas.

umas
unhas
sobre
as outras,

faziam
dietas
e californianas

e pintavam-se
de muitas
camadas

para eles.


para eles
tratarem-nas
como gado.
seiscentos e seis

cada adolescente
chama a atenção
como pode.
seiscentos e cinco

'You can't say a greater true than two descending fourths (...) you can't reduce it anymore.'
- Yehudi Menuhin @ Of Beauty and Consolation
seiscentos e quatro
um dia
o padre
lerá
a homilia
pelo ipad.

e esse acontecimento
não será problema
nem para crentes
ou hereges.
seiscentos e três

desde os sete
que era um
simples
e pé-descalço
ardina.

trabalhou,
e vendeu
muitos jornais

extra!
extra!
edições especiais

e de um dia para o outro
depois de muito trabalhar
tinha um império.

de cerveja.
seiscentos e dois

zimbra cagalhoto! - dize J.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

seiscentos e um

mesmo fora da passadeira,
deixar sempre o 'grelo' atravessar a rua.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

seiscentos

seis centos.
nada de especial.
a não ser o facto
de já ninguém
escrever
o numeral
cardinal.
599
é demasiado óbvio,
de tão provável,
um engenheiro informático
tornar-se num violador.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

598
pareser,
um verbo
tipicamente
contemporâneo.

domingo, 26 de janeiro de 2014

597
uma exigência do nosso tempo
é que tínhamos de ser 'assertivos'

na maneira como escrevíamos
ou como nos vestíamos,

porque achávamos
que tudo
à nossa volta
estava permanentemente
a olhar para nós.

sábado, 25 de janeiro de 2014

596
já só se ouviam
os lamentos
e a
ladainha
constante.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

595
nunca nos contaram
do Monte Veritá.
essa
consciente
inexistência
nos
livros
de
história.
594
estranha contradição desses tempos:
só resistiam os mais conformados.
593
acordas com a seguinte hipótese na cabeça:
os chimpazés são tão mais inteligentes do que nós, que boicotam todos os testes de inteligência que lhes passamos a vida a fazer. transmitem este conhecimento de geração em geração só para não passarem a ter de aturar os humanos com as suas dúvidas estúpidas.
talvez um chimpanzé tenha tido certa vez um pesadelo em que os homens descobriam a inteligência dos primatas...

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

592

num parque
de estacionamento
subterrâneo
nos bancos da frente
de um carro
duas pessoas
estão imóveis
e em silêncio.

olham para
a parede branca
vazia
em frente.

talvez estejam
de olhos fechados,
não se percebe bem.

eis que chega o segurança,
desconfiado:

nada há de mais suspeito
para quem está no mundo
do que duas pessoas juntas
a fazer rigorosamente nada.
591
é cada vez mais evidente
que o busto do Napoleão
resolveria todos os nossos problemas.
590
criávamos,
ou será melhor escrever
produzíamos,
- porque não era bem criar o que fazíamos -
inexistências
a cada dia
que passava.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

589 e meio
o país de onde Saramago teve de fugir
e onde toda a gente enche a barriga de Saramago.
591
às vezes os 'media' garantiam
através de estudos
que a cerveja fazia barriga;
e depois,
baseados noutros estudos,
garantiam exactamente o contrário.

as pessoas 'informadas'
já não sabiam bem
o que sabiam realmente.
e ficavam o mais quietinhas
possível.
590
como gatos que se lambem repetidamente nos mesmos sítios de pêlo impecavelmente limpo,
cuidávamos com todo o esmero da nossa imagem e reputação,
no facebook.
589
'Se podes ouvir, escuta. Se podes escutar, repara.'

domingo, 12 de janeiro de 2014

588
cona -
eis
uma
palavra
difícil
(de
suportar)
.

sábado, 11 de janeiro de 2014

587
se a vida queres prolongar,
a próstata tens de poupar.

domingo, 5 de janeiro de 2014

586
sabíamos coisas das vidas uns dos outros,
mas raramente estávamos juntos.
585
idolatrávamos o novo e menosprezávamos o velho.
584
ainda acabas com aquele casposo que deita gafanhotos pela boca enquanto fala.

sábado, 4 de janeiro de 2014

583
na ordem
das três
as cebolas que compravas
no super-mercado
em sacos
de um quilo
ou dois
vinham já podres.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

582
no primeiro dia de trabalho do ano,
és o primeiro escravo a chegar.
581
ias pelas ruas
a passear
e o caminho era
tão interessante
tão interessante
que só tinhas vontade
de ler em andamento.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

580
dura res, sed res.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

579
calha ires
a Veneza.
e quando
regressas
a Portugal
a única
pergunta
que se repete
é se
'lá aquilo sempre cheira mal?'.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

578
corríamos
à beira-rio
para
mantermos
a linha.
como
marcharemos
e para quê
quando
o paradigma
mudar?

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

577
nesse dia
fez as contas
ao que lhe pagavam.
e começou
a trabalhar
às 15:15.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

576
quando falavam entre eles tratavam as suas mulheres por 'Marias'.
ele era 'a minha Maria isto...', 'a minha Maria aquilo...'.

domingo, 20 de outubro de 2013

575
pode
sempre
acontecer
que um dia
finalmente
descubras
a tua voz
e que ela
tenha
interesse
nenhum.

sábado, 19 de outubro de 2013

574
envelhecias
ao ritmo
do desejo
(...)
do final do mês.
[v. stanza 152]

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

573
por dia,
fechados na mesma sala,
passavas mais tempo com eles
do que com o teu namorado,
e no entanto eles eram
completos estranhos
para ti.
572
homens de fato e gravata:
sabíamos tão bem o que lhes fazíamos.
571
ligas a Antena 2 e está o Laginha ou o Sassetti a tocar a Mariquinhas.
perguntas a ti próprio: por que é que achamos tudo o que é português bimbo?

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

570 e meio

tudo o que fosse feito
lentamente
chegava
atrasado.

por isso já
não prestava.

tudo
o que era bom
é porque era rápido.

só o amor
precisava de só
ser bom.
com 'orgasmos múltiplos, se fazes favor.'

tinhas de escrever
bem
e
depressa,
de ser
contundente
e de
todos os dias
manter a obra
actualizada,
senão eras
'ultrapassado pelos
acontecimentos'.

os velhos,
de andarilhos
eram lentos
e ficavam
para trás.

falavam
arrastado
para dentro,
nos seus lares,
para outros velhos
como eles imaginados.

havia
muito
'desejo de
futuro'.

havia.

só que
ninguém
sabia bem
para onde
tão
apressadamente
seguia.
570
os tempos exigiam
rapidez.
na entrega
(como diziam
os ingleses).
569
no teu jardim,
o cosmos todo.

sábado, 12 de outubro de 2013

568
estamos a embrutecer vertiginosamente.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

567
os que se acham pouco,
por muito se acharem.

domingo, 6 de outubro de 2013

566
querias de volta aquela sensação de tempo infinito.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

565
'impressione com a marmita mais cool' - dize o cartaz

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

564
saca-rabos
563 e meio
os especialistas garantiam que ler fazia bem;
mesmo que se tratasse de merda bem encapada que nos serviam nas livrarias, ou nem isso livrarias;
convinha termos opinião sobre as obras, sobre as que líamos e as que não líamos, e por que é que as não líamos sem nunca as ter lido;
líamos em várias línguas, livros uns a seguir aos outros. éramos saudáveis no ler como no ginásio, aquilo era uma indústria e nunca se editara tanto: no mínimo era lançado um livro novo por dia.
havia quem fosse famoso e vendido sem nunca ser lido por ninguém, muito menos por gente séria;
tal como ninguém votara em cavaco silva apesar de ele ser Presidente da República.
os outros tinham mais do que fazer do que ler.
ler ou não ler lendo.
563
liam Dan Brown a rodos.
562
quanto mais falam,
menos dizem.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

561
lindo
é
o
céu.

sábado, 31 de agosto de 2013

560
benzo
diaze
pinas.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

559
'só olho para aquelas que gostava de comer.' - dize A.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

558
confeccionava o jantar
(se é que
confecção
àquilo
se podia
chamar)
como os putos faziam
os trabalhos para casa.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

557
morri
no dia
em que
me pus
de acordo
com o mundo.

domingo, 21 de julho de 2013

556
na nossa
(única)
condição
humana
de consumidores.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

'Toda vez que ouço falar em público-alvo me abaixo, com medo de levar um tiro.'
- Tom Zé

quinta-feira, 11 de julho de 2013

555

pelas
teclas
brancas

fazes
belas
fugas.

em dó
maior,
claro.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

quinhentos e cinquenta e quatro

554
os nossos rabos
demasiado pesados
para seguirmos de pé.

a ladainha constante
e o credo
como saliva
pelos cantos da boca.

quinhentos e cinquenta e três

553
poema belo de ler,
beaux de lire,
beau de lere,
Baudelaire.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

quinhentos e cinquenta e dois

552
talento, quase nada consegue comparado com a determinação.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

quinhentos e cinquenta e um

551
aquele barbeiro
cortava
terrivelmente
o cabelo.

mas
sempre
lá voltava.

e de lá
sempre
saía
surpreendido
com as
pontas-soltas
que ficavam
por aparar.

quinhentos e cinquenta e meio

550 e meio
até incham
quando dizem
resiliência.

quinhentos e cinquenta

550
resiliência
palavra
que é um
brilharete.

quinhentos e quarenta e nove

549
escutar os mestres.


quinhentos e quarenta e oito

548
'Há livros que falam e livros que ouvem.
Os livros que falam são os maus, os que ouvem são os bons.'
- António Lobo Antunes, entrevista por Ana Margarida de Carvalho

quinhentos e quarenta e sete

547
o
riso
soa
igualinho
ao
choro.

quinhentos e quarenta e seis

546
a obsessão
com o
sexo.

diz que a normalidade
é praticar
duas
vezes
por
semana.

quinhentos e quarenta e cinco

545
resistentes
aqueles
que
(ainda)
livros-mesmo-livros
lêem.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

544

544
teus
peitos
detetas
feitos.

[graças ao novo Acordo Ortográfico]

543

543
detectas a madureza da fruta pelo toque
ignorando as pessoas que o fizeram antes de ti.

(* 'de tetas', como sugere o novo Acordo Ortográfico)